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Desmemória
Não há sonho nem pesadelo. Não há confusão, atropelamentos, insegurança. Não há alegria nem sorrisos. Não há moça na janela nem pessoa esperando no portão. Não há música, apenas vazios cálidos, poentes. Não há respostas, mas excesso de perguntas. Não há diálogos, mas silêncio atmosférico. Não há água na lua, nem terra fértil em marte. Não há anúncios em jornais e os livros foram queimados. Não há rosas amarelas no sertão do coração, nem pirilampos nas ruas da noite. Não há conversas movidas para a lixeira nem cartas enviadas pelo correio. Não há papel nem tinta, apenas pedras. Não há madeira nem fogo, os tambores dormem. Não há amor nem carinho. Não há dia seguinte, depois, amanhã, nem felicidade. Não há voz nas sombras do planeta. Não há carnaval nem ano novo. Não há paixão nem desejo. Não há faróis ou sinaleiras no vermelho. Não há homens caranguejo nem mulheres oprimidas. Não há mágoa ou ressentimento. Não há mendigos, miséria nem pobreza. Não há saudade nem futuro. Não há carros, buzinas ou outdoors. Não há mais floristas, crianças sorridentes a brincarem na rua, casais se beijando no banco da praça. Não há mais parques, árvores, gansos, pelicanos, verde que te queria. Não há mais mentira nem meias verdades. Não há mais contratos descumpridos, notas fiscais, bancos ou agências da expropriação. Não há mais burocracia, nomeações, indicações, escalões, funcionários. Não há mais assessores nem assistentes de nada. Não há mais rompimentos de casamento nem namoros, quanto mais noivados. Não há dança da chuva, do sol ou do acasalamento. Não há mais criatividade, mediocridade. Não há idade, ninguém mais espera de esperas em esperas. Não há montanhas, estradas, plantações, refúgios, paraísos azuis, casas no meio do mato, nada. Não há mais mar nem cachoeiras, os rios desaguaram. Não há Oiapoque ao Xuí, borraram-se os mapas. Não há mais direitos nem deveres. Não há leis ou constituição, consumidor ou vendedor, proprietários ou escravos. Acabou-se a polícia, os exércitos, os tráficos. Extinguiram-se as periferias, não há mais subúrbios, morro fraco ou valente. Não há mais arte nem a busca do belo. Ninguém conversa, não há mais política. Não há mais governo, sumiram os ministros, o presidente, os reis e as rainhas. Puseram abaixo os palácios e as ilhas de fantasia. Não há mais navios, frotas, aviões, submarinos. Não há mais peixes, algas nem cabelos nos cabelos. Não há mais beijos públicos, molhados, sôfregos, suados. Não há mais abandonos, fugas, covardias e deslealdades. Não há mais cicatrizes, feridas, cortes profundos nem cirurgias. Não há mais doença, hospital, necrotério, metrô. Ninguém mais chora ou escandaliza. Não há mais porres nem loucuras, não tem mais vômitos nem xixi na rua. Não há mais teatro nem dramaturgia, novos ou velhos autores, poetas, desenhistas, compositores. Não há mais oportunismo nem o mau-caráter. Não há elevadores, ascensoristas, porteiros, motoboys, nem ônibus. Não há arroz e feijão e as vacas foram embora com seus bois. Não há mais televisão, novela, reality show, gente pelada ou vestida, tele-tudo-nada. Não há mais gritos ou vossa excelência. Não há mais protocolos, memorandos, raivas, ofícios nem ossos. Acabou-se o cinema da vida.
‘Conversando’ com certo texto de Fernando Bonassi - publicado na revista Ocas de julho / 2006 -, de título 'Nada, lugar nenhum’.
Escrito por porque escrever é preciso às 15h43
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Coluna SEM INOCÊNCIA
(de Palena Duran, no blog Banga)
Ê Banga um, Banga um, ê bangá!
Uma da manhã e ainda não consegui fazer valer meu login e senha neste blog Banga. Acontece às bangas, deve ser isso. Tive um dia bronco, é tarde aos olhos e há dias que venho sentindo-pensando no que escrever. Que tipo de emoção imprimir quando o texto é livre? Que banga, hein. Teremos temas semanais, sim. O desta semana é Banga, primeiros registros sobre os propósitos de nossa deliciosa aventura. Cada um a seu modo, com seu estilo, estética, gêneros, linguagem, experimentações e percepções próprias. Assim sendo, Banga é também busca de liberdade. A qual liberdade me refiro? A do texto-livre-texto, antes de qualquer coisa, porque já nos bastam amarras e nós diários em tudo, por tudo. E temos sonhos! Banga une grandes e pequeninos sonhos, desejos e necessidades. E dá-lhe banga!
Banga não é xampu para cabelos lisos, ruivos ou encaracolados. Banga não é especializado em chutes de direita, socos de esquerda ou cabeçadas na lateral. Banga não é hidratante para peles brancas, vermelhas, negras nem azuis. Banga não tem roupas ou moda definida, é hetero e homo sem se pretender ‘moderna’ ou de gueto. Banga tem idéias que se mostrarão no dia-a-dia, na coluna de cada banga. Banga é multicor, multiorigem. E urucum, tambor, cordas, percussão, ópera, amendoim, samba, rock, manga, vinho, jazz, vitela, baião de dois, cachaça...
leiam a continuação em http://www.banga.uniblog.com.br
Escrito por porque escrever é preciso às 16h39
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Art by Bia Clark
www.banga.uniblog.com.br
Novidade imperdível!!!
Visitem o novo blog Banga, no ar a partir de hoje.
O coletivo é formado por Palena Duran, Paula Cury, Tiago Feliziani, Bia Clark, Juliana Amato, Leonardo de Moraes e Ana Claudia Calomeni.
*abriremos espaço para colaboradores intra & entrenet! em caso de interesse, poste seu comentário (com e-mail e/ou página na web) no blog Banga e entraremos em contato.
Escrito por porque escrever é preciso às 12h26
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Nada como antes
Depois, então, apenas onze e meia da manhã. Horário de verão, café e frutas, nem apressamos os relógios. Seus olhos sobre o travesseiro, a mão que procura o dia na pele de ontem. Acontece que o coração não ficou frio. E alguém lia a eterna fé no depois na escadaria da noite, ou seria nos dentes? Sim, sorria, bela em sua altura, aloirada. Esguia como a música, ela se movimentava em plumas nos cabelos ou nos abraços sonolentos, não se sabe quem a tocava. Era o frágil desespero do sol nas cordas vocais ou a rouquidão na textura da lua, em gotas, aos charcos. Uma figura que ressurge do passado, meio ele, meio ela. Beijam-se no elevador ou numa nau desgovernada, tanto faz, é canção de milagres no 13° andar mais um lance de escadas. Varremos as sombras, caminhamos a pensar que vamos e ficamos. Quando fomos tínhamos ido e agora volta no telefonema, prefixo de uma cidade escondida no país. Volta no mesmo ônibus que atravessa minas e montanhas, sem ânsia de depois, como nos dias em que se escreviam cartas distantes. Por acaso a poesia, por acaso o retorno, Embriagado De Olor Uniendo Aires Rotos, Dolorosos?
Era folha caída e a primavera pairando nas árvores a espiral do tempo nos corpos que se conversam. As coisas findam reatando laços com a origem, nem tão findas, nem tão turvas ou sinuosas como as estradas de antigamente. Vejo-nos no meio do caminho, repete-se tua canção, la voz baja sobre las fronteras, quem diria. Não somos os mesmos e a atmosfera perdura, ao passado não se pergunta porque passou, é a natureza dos reencontros. Não acontece de fingir, mas de tirarmos as roupas como velhos amantes, adoçados no suor de nossas bocas. Língua na língua. Un hombre me bebe y me toma en brazos. Como clavados contra el cielo, suspendidos en la niebla o precipitándose al mar. Róseas horas em que trançamos sussurros no breve silêncio do agora. Tudo comer, tudo dormir, tudo no fundo do mar. Ele tão menino, tão ela na claridade. Radioatividade tropical.
Escrito por porque escrever é preciso às 15h26
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