| |

Antonio Rocco - Os emigrantes - 1910
Palavras
A propósito de uma crônica de Ferreira Gullar, na Folha de S. Paulo, em 20 de agosto de 2006. ‘Sem razão em Parati’. Conta-nos sobre um debate, na Feira Literária de Parati, com participação dele e do escritor palestino Mourid Barghouti. O tema era Exílio. Daí partiram para a importância, o poder de transformação, bem como de comunicação, contido nas palavras. Entre outros usos e desusos.
Para conversar, então, ‘sobre a palavra’, reproduzo os parágrafos finais do texto de Ferreira Gullar:
‘Chegada a minha vez de responder, admiti que as palavras às vezes servem para confundir as pessoas, mas servem também para esclarecer as questões -do contrário, viveríamos numa Babel. Elas são apenas um meio, o que importa é a disposição das pessoas, que sempre querem ter razão, sem considerar as razões do outro. Isso não dá certo nem no casamento. Você insiste em que está com a razão, briga e depois vai para o quarto, cheio de razão, mas sozinho, triste. Então, de que serve ter razão? De minha parte - disse eu - desisto, não quero ter razão, quero ser feliz’.
É que às vezes as palavras deixam de encantar. Há épocas que parecem não ser de palavras ditas ou escritas, os discursos ora repetitivos, ora vazios, enganosos, hipócritas, ora vagos, cínicos, ora sem imaginação. Quero dizer as palavras de reflexão ou de olhar despretensioso sobre a vida, as palavras. Lembro do encantamento que tinha por discursos, quando criança sempre gostava de escutá-los, mas hoje em dia... Ah! E como as separações são um processo de quebra, dissolução, ou retorno, lá vou atrás da sensação nas palavras.
Aquelas que nos provocam um viver diferente, nem que seja na imaginação, aguçam nossas fantasias. Porque também queremos voar e não há mal nenhum nisso. Porque sonhar com o coração, acreditar na verdade vinda desse misto de furor e paixão que pode conter a palavra. Nas forças humanas motrizes. Aquilo que nos mata ou dá a vida. O sofrimento, a felicidade, o gozo. E se vamos à raiz, retornamos à existência mitológica. A palavra reina na mitologia de variadas maneiras, tanto encanta e seduz como o contrário, domina, fere e destrói. São bem mais de mil e uma noites de histórias.
Assim tem sido entre os que da palavra se servem ou são servidos. Mas também penso nos que a criam e utilizam. Os ‘dominadores’ da palavra, que uso fazem dela? Como a multiplicam, sua verdade viria de qual lugar? A verdade, antes de tudo, mais que letras, teria de ser prática entre nós. Somos crentes de palavras e o que elas nos produzem, ou como entre nós se reproduzem. Inscrevem. A palavra, o tato, o olfato, a audição, nossos primeiros contatos. A palavra é um sentido, sensibilidade.
E que sentido temos dado às palavras? Quais cuidados temos tido com as palavras? Existem filtros – velados ou públicos – entre emissores e receptores. Sejam palavras ditas ou escritas, saem de pessoas donas de universos culturais próprios. Cada um é um, mas existe o terreno que nos torna comuns, ou semelhantes, aptos a compreendermos as palavras uns dos outros. Como estará esse terreno entre nós? Como temos nos comunicado ultimamente? Estaremos nos aproximando ou nos distanciando através das palavras? O que temos escutado?
E mais, de onde vem sua força? Do coração, do cinismo, da hipocrisia, da distração, da indiferença? Quais verdades mais têm se aplicado às palavras? Lembrando um querido amigo, cineasta e homem de viver que é Hermano Penna, de qual ‘gênero humano’ elas tem vindo?
Refiro-me às cartas (ainda que em desuso), aos e-mails, às conversas ao telefone, nos restaurantes, nas ruas, aos discursos políticos, aos emissores que todos somos.
Que trato temos tido com as palavras nos últimos tempos?
Escrito por porque escrever é preciso às 13h25
[]
[envie esta mensagem]
Cais
Milton Nascimento / Ronaldo Bastos Para quem quer se soltar Invento o cais Invento mais que a solidão me dá Invento Lua nova a clarear invento o amor E sei a dor de me lançar Eu queria ser feliz Invento o mar Invento em mim o sonhador Para quem quer me seguir Eu quero mais Tenho o caminho do que sempre quis E um saveiro pronto pra partir Invento o cais e sei a vez de me lançar.
Escrito por porque escrever é preciso às 01h29
[]
[envie esta mensagem]

Enquanto isso passava um ônibus do outro lado da rua. Metrô. Ninguém olhava ninguém, todos além. Quietos de mãos encolhidas, olhos fundos sobre o mundo, sensações distantes. Também tinha o medo a qualquer movimento brusco, ao braço encostar sem querer em outro, desculpa, não foi minha intenção te invadir, cuidado. Atentos ao medo e ao cuidado da solidão. Tinha o cultivar estar só. O não saber se sentir feliz àquela hora, a pressa em alcançar a distância do que se pretende, sonhar e andar sem correr.
Não chegam notícias de que as coisas vão mudar, os discursos não tocam o coração, as cartas chegam vazias de espera. E também não escrevo mais cartas como antigamente, o tempo me corrói sem ter acontecido. Vivo o antes e o depois e o encanto do enquanto se perde. São os tempos, mas tem dias que entrego a alma aos santos e aos demônios. E também é preciso pensar depois a vida, o sonho da vida, a vida de sonho, o encontro com a verdade. Seria próximo da felicidade? Parente da esperança de ser tudo o que você podia ser?
Tinha gente no carro ao lado. Vidro fume, espreita. Ninguém presta atenção em ninguém, a não ser que o outro reflita alguém. Impressões no cruzamento da esquina. Foi muito barulho, gente zanzando de um lugar a outro, quis estar noutro lugar. Só os velhinhos, crianças e cachorros ainda sabem passear. Porque estamos no meio do tempo e ele não pode parar. Só quando chegar a hora de não poder mais viver o tempo, talvez. Um dia monto um palquinho na praça, pra contrariar, instalo um microfone de protesto, canto e poesia. Seremos felizes assim? Estaríamos ‘certos’ por buscar outras maneiras de ser?
O sinal abriu. Medo novamente. Motoristas de carros, em geral, não respeitam pedestres. Está verde, mas corre. Porque nunca se sabe do outro. Tampouco de nós inteiros. Ninguém mais abraça daquele jeito apertado, quente, parece tudo meio endurecido, truncado, dentes rangendo, mensagens não enviadas. Nem todas as pessoas conseguem dizer tudo. Porque nunca se sabe de si a esse ponto e a prática do cinismo interesseiro também ocupou seus assentos no teatro. Então perguntei à trêmula senhora se queria ajuda para atravessar a rua. Assustou, olhou-me, sorriu e descansou na confiança. Simples assim a felicidade? Ajudar a si através do outro, sim, é que um pouco perdemos esse hábito. Quantos risos eu também teria perdido hoje? Onde estávamos no minuto passado?
Cheguei. Quero silêncio, mas a rua vem pra dentro de casa. Helicópteros, aviões, caminhões fazendo trepidar o chão da sala. Irritação. Ligo as máquinas, qualquer uma que ocupe mais que as outras. As de fora. Quero música, por amor aos deuses! Procura entender a minha dor, não se ocupe em esvaziá-la de sentido, porque passa. Sim, passa o desdito, o ruído e. Depois seríamos felizes? Não haveria mais beijo partido, nem pós-despedida? No tempo invisível saberíamos aproximar as volúpias, nossas alegrias, inventar uma hora tranqüila de brincadeira e descanso, ainda que as buzinas não cessassem?
Acho que. Faz anos que não estou aqui, dormente, alguém me traga de volta, por favor. Diga algo, grite, solte fumaça na minha cara, esperneie, diga que nada disso presta. Rasgue os papéis, vire a página, aperte o próximo botão, desista da salvação, mas – antes – dê um sinal. Não permita mais o vago túnel do olhar, o gosto metálico da indiferença, a falta de saliva nos lábios estrangulados, embora calados, secos. Não deixe o encanto ir embora, procure se dedicar um pouco mais às sensações, agarre a intuição.
Em busca, lembra? Um minuto e seria quase uma reza, equilíbrio. Ao final, é também o que nos fica. A memória se constrói dos sentimentos no mundo. No amor, em verdade, talvez.
- Pensando melhor, quem sabe amanhã ela não chega?
- Ela quem? (Pausa. Olham-se.) Tenho tanto sono, estou exausto.
- A felicidade, meu bem, escuta, escuta...
Escrito por porque escrever é preciso às 01h28
[]
[envie esta mensagem]

E por falar em saudade 28-08-2006
‘O beijo é por onde tudo começa’, alguém disse. Começa e recomeça em cada beijar, digo agora. Então confesso que, por falta de um morno e molhado beijo, ainda que desfeito pelo cansaço dos dias, aquilo que nos re-morre, esse meu coração saltita demais à noite. Tão único e frágil que pode ser um beijo. Dele, nele renascemos ou desistimos de perseguir os íntimos sinais da pele na carne da pele. Hmmm... E calados beijamos para escutar melhor.
mais em http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=131
Escrito por porque escrever é preciso às 13h51
[]
[envie esta mensagem]

Tá bom, eu paro com isso.
Ontem? Não conto.
Foi nada, brincadeira.
O telefone estava desligado ou a porta trancada, agora não lembro.
Quis dizer ‘Só me procure quando estiver sentindo saudade’.
Sentindo, entende?
Assisti Elsa & Fred – Um amor de Paixão. Very, very. Hmmm...
Por quê é que teu primeiro beijo não foi na minha boca?
Como pudeste ir à Fontana di Trevi sem mim?
Roma, meu amor quase romã.
Refizeram aquela linda cena de La Dolce Vita com dois velhinhos apaixonados. Supremo!
Hoje tenho 70 anos, ontem foram 20, amanhã 30 e poucos.
Às vezes durmo criança.
A vida deve ter romance e loucura. Não era um trato, mas a gente combina.
De manhã, passarinhos na janela, segredos.
Ele tinha um sapato de mulher tatuado no corpo. Disse-me para ficar com deus, sem depois.
Prefiro outras coisas, você sabe, mas agora.
Cala-me com um abraço, aperta-me em ti, não me deixe ir embora.
Diga o que meus olhos pedem, pode ser baixinho, ao ouvido, mas diga algo.
Senão eu mato o mundo e me junto ao coro dos descontentes por Plutão ter sido rebaixado.
Tá bom, eu paro e fico.
Mas viola, meu bem, viola meus sentidos.
Escrito por porque escrever é preciso às 15h28
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|