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Salve, salve trabalhadores!
Logo que começaram as obras do metrô, no segundo semestre de 2005, foi aquele alvoroço aqui no bairro de Pinheiros. A mudança dos sentidos das ruas, novas placas nos postes, os ‘amarelinhos’ do CET reorganizando o que podia e não podia, guardas do DSV coordenando motoristas, enquanto a tropa de trabalhadores iniciava sua dura missão e os paulistanos mais irritadiços com os novos percalços. Como se não bastassem os problemas de dentro e fora de casa, significaria mais trânsito, mais desvios na tão desviada vida nesta megalópole.
Por conta das mudanças aconteceram atropelamentos, automóveis se chocaram e pararam o tráfego, ruas antes tranqüilas se transformaram em tormento, os velhinhos e os cachorros tiveram que reaprender a atravessar as ruas, e o pó se avolumou mais ainda dentro dos ambientes. No início, os moradores do bairro ficaram desnorteados, todos reclamaram muito, principalmente os lojistas que viram os clientes sumirem às vistas e ao crédito. Foi um escarcéu, os estabelecimentos comerciais que tiveram de fechar suas portas ainda estão pedindo indenização ao governo do estado.
Embora seja uma benfeitoria com muitos anos de atraso, o metrô é e será sempre bem-vindo aos que dependem de transporte público. Com o tempo aprendemos a conviver com a desordem nas ruas quebradas, com as britadeiras aos berros desde cedinho, com as freqüentes surpresas nos caminhos, de manhã se podia transitar por um lado da calçada, mas à noite o caminho já estava impedido e éramos obrigados a dar a volta no quarteirão. Durante as primeiras semanas nunca se sabia o que teria acontecido durante a noite, por quais trajetos teríamos que percorrer no dia seguinte, e assim, sujeitos às obras do metrô, tivemos que mudar nossos horários. Quase nos acostumamos a andar por corredores estreitos entre grades e tapumes, esbarrando uns nos outros, bolsas e sacolas se chocando, bicicletas a nos surpreender nas curvas, tendo que pular das poças de água lamacenta, e tantas vezes ter que parar para esperar que o guindaste carregando toneladas de terra escavada descesse ao solo. Causando-nos atrasos e impaciências, porque na maratona cotidiana de São Paulo não se pode esperar por nada, 2 minutos, onde já se viu? Porém, depois, já diziam ‘obrigado’, ‘obrigada’, alguns puxavam papo e sorriam para os trabalhadores com capacetes cor de laranja fosforecente.
Nos primeiros meses o assunto no bairro eram as obras do metrô, quem se beneficiava, quem saía prejudicado, quanto tempo duraria aquilo, o governo que já estava se preparando para a campanha eleitoral de 2006, o dinheiro bem ou mal empregado, lembranças dos superfaturamentos de obras nos trágicos períodos de Maluf, Quércia, coisa e tal. Vizinhos de ‘oi, tudo bem?’ de porta de edifícios e casas, gente que se cumprimenta apenas porque encontramos todos os dias na rua, garçons, sapateiros, lojistas, cabeleireiros, caixas de supermercado, pessoas que antes não se conheciam passaram a se falar durante os minutos de obstrução dos caminhos. Enquanto o guindaste subia lá estava uma fila de gente esperando pela ordem de comando para poder passar. Ansiedade. Houve quem brigasse com o tempo perdido, xingasse o governo e o governador, criasse caso com a chuva e o vento, enquanto outros se paqueraram nas brechas dos dias.
Escrito por porque escrever é preciso às 14h07
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(continuando...)
Se no início houve certa intolerância, depois o hábito e a curiosidade. Era impressionante ver aquela horda de trabalhadores diuturnamente escavando calçadas, se enfiando debaixo da terra, arrancando enormes pedras do solo, abrindo buracos inimagináveis, transitando com ferros e máquinas daqui pra lá, e vice-versa. Ninguém entendia nada, afinal como é que se constrói o metrô? Daí, quando dentro do vagão, é que se passa a olhar e prestar atenção à estrutura, à dimensão, a por valor na tamanha tarefa que é construir um meio de transporte como esse.
- É muita responsabilidade, será que eles sabem mesmo o que estão fazendo?
- Bom dia!
- E se esquece de alguma coisa, será que dá certo?
- Imagina se faz errado, pode matar muita gente!
- Vê lá, hein, que a tua mãe vai andar nesse troço!...
- Boa tarde.
- Olha que grande aquele trator, pai!
- Moço, pra onde vocês vão levar essas pedras?
- Minha Nossa Senhora, eles tão cavando esse buraco faz uma semana e não pára de sair água, acho que furaram um cano...
- Eu é que não passo em cima dessas tábuas, imagina se eu caio?
- Dá licença, por favor?
- Obrigada
- Olha o tamanho dessa máquina, pra quê que serve?
- Desculpa
- Onde eles vão enfiar esses ferros, deus meu!?
- Olha que bonitinho aquele ali...
- Boa noite.
Com o passar dos meses tornou-se rotina exposta à curiosidade pública, para alguns foi quase um parque de diversões 24 horas, de segunda a segunda. É realmente impressionante o que esses homens fizeram nesse meio tempo, acho que foram 9 meses, nem sei. Vi-os tomando café, trabalhando, almoçando, trabalhando, jogando dominó, trabalhando, descansando no sol, trabalhando, jantando, trabalhando debaixo de chuva, frio, o que fosse, de lá não arredaram o pé.
No dia 24 de julho vão liberar o tráfego e as calçadas da Rua dos Pinheiros, as quais também por eles serão refeitas. Depois disso continuarão as obras debaixo da terra, no subterrâneo, e não mais poderemos vê-los ou cumprimentá-los como antes. Admiro o trabalho desses bravos homens, espero que saibam o valor de seu empenho e esforço. Isso, sim, é trabalho público responsável e comprometido com a sociedade. A estes e tantos outros trabalhadores incansáveis desta cidade, dedico meus mais sinceros parabéns, muito obrigada!
São Paulo, 07 de julho - 2006
Escrito por porque escrever é preciso às 14h02
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