Escrito por porque escrever é preciso às 02h43
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Não me chame porque hoje apaguei os raios.
Desci da terra pra encontrar Caos, primeiro e mais profundo abismo. Faz escuro onde permanece noite sem pílulas de brilho enquanto deuses altos no céu em luz diáfana brincam mitologia. Olhos pra quê se nem as flores do Flamboyant ou do Ipê ali pintando tapetes nas ruas gracejam? Não é dia de feira e deu vontade de jabuticaba, saudade da Vovó Ceci no instante de dizer adeus. Escrevi uma carta resumida em muitas páginas fora de ordem e sem números de datas. Claro que tudo não existe como tampouco o sempre que deixei pra trás, e faltou viver melhor.
Não me peça porque fui embora.
Diz que fui por aí e assim tem sido em horas de chegada e partida. No meio da tarde mesmo, sem mais nem menos, ninguém escuta entre motores - tanto no céu, onde vive Urano a cobrir Gaia por cima, e aqui terra.
Não me busque porque não estou.
Arrumei o armário, limpei as gavetas, e nem relicário no fundo da prateleira. As coisas não cabem nas malas e tremo ao pensar em sair nas pontas dos pés com a trouxa e os cabelos caindo.
E ainda espero a palavra ou frase epitáfio que feche a porta por onde entrei sem chaves.
Escrito por porque escrever é preciso às 16h39
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Ilustração Fábio Metzger
Engraçado é que você nunca soube e nem pode mais perguntar. Porque quando entrei naquele banho demorado e cuidei de lavar bem os cabelos, deixando o condicionador agir por aqueles tantos minutos, e passei pelo corpo o tal sabonete de calêndula natural massageando com a esponja todos os cantos descuidados durante o dia. O corpo que costuma sair coberto na cidade sabia que alguém morreria, nu, dentro ou fora, pouco importa, você estava marcado desde o curto momento em que me matou. E de quê valeria um banho, já no final me perguntei, quando a morte nos banharia novamente? E pensava que seria mais um disso ou aquilo, o que faria...? Dúvidas sem texto ou teatro pra quê? Declaro que todas as peças de teatro têm direito à encenação, porque devem ser julgadas pelos espíritos que nos rondam, pela razão que não prevalece, por tudo o que nelas deve morrer!
Naquele mesmo dia saí pronta para matá-lo, contente até. Parece que tínhamos pauta de conversa, o fim que nunca chega e tem anúncio retroativo. A primeira reação era raiva, principalmente por causa do desdém – enfado, e eu gostaria de me transformar numa gigante para ele me Olhar de Verdade, porra. Queria vê-lo chorar, saber que a vontade era ficar só comigo, e já não suporto aquela cara. Mas coisa estranha acontece, quando o vejo não sinto nada. Depois me pego sozinha – eu comigo a encontrar o que no momento não chega – e penso ser saudade dele. Engordei nos últimos meses, depressão é sentir a morte caindo por fios de cabelos intermináveis. Quero muito carboidrato e ao mesmo tempo inventar outro corpo pra ir à padaria. O porteiro sabe, escuta tudo nada mudo e me olha com a boca retorcida, doida por perguntar; mas nem vejo, cago e ando com a lança balançando no centro do peito, e finjo respirar. Como tão rápido que 50 por cento é oxigênio, soluço, e ainda quero um croissant de chocolate; do mais gordo e recheado. Procuro algo, vou ao cinema sozinha pra calar a vida - na última sessão. Entro no raro ônibus da meia noite e escondo o rosto num livro, longe da percepção do cobrador ou dos vizinhos, porque tenho a impressão de que todos são espelhos de eu e essa desgraça. Claro que ainda não consegui matar, apenas morrer mais um dia e deitar-me na mesma cama que ele.
Escrito por porque escrever é preciso às 13h47
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