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Ph Palena Duran | pintura em parede | tinta acrílica para tecido | sem título | 2013



Escrito por porque escrever é preciso às 07h08
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Ode às cerejas

Ph Palena Duran

Ode às cerejas

04 é janeiro e 2010

 

 

 

Noite vinho e lábios ressentidos e descender. Ele em busca de ingredientes ambiente. Agora. Quando.

É preciso delicadeza às pitadas de temperos. Existem medidas calculadas para algumas receitas, o ponto não estragado no gesto. Então a colher de chá encosta-se nalgum canto da pia e assiste a concavidade das mãos. Minguado médio maior entre dedos na pele dobrada. Natural tessitura.

Além, o secreto genuíno hoje.

Há mãos em dedos e dedos em mãos e ritmos incidentais no capricho dos sabores. O pedestal imaginário. A ilusão e o sentido e a equação entre cor e forma e o bendito que se proclama. Harmonia entre fome e sede e ânsia e a gravidade nos movimentos uniformes e variados. Acarinham-se as queixas e os cansaços nos glóbulos de cada um aos seus acontecidos e alentos e desenganos pedestres nos corredores do tempo.

Logo invento desponta.

De casca a casca roçar e soar aos ombros menos curvados do toque de alvorada ao de recolher. Pasta. Molho. Cebolas. Corta bem fininho, cuidado com a faca, e não esfregue os olhos. Ao arder. Água fria, meu bem.

E ele busca o vinho e o limão para o drinque, mais queijo ralado e mais... Vai à frente da preguiça ou da fome esquecida da poesia. E sabe lá que bicho pode vir daqui a pouco quando ela acordar olhos-de-boi engrossados e agravados por contar com.

Tem fomes em fomes e fomes e fomes na gente.

E vaza o haver de menos no talho das cebolas. Lembra? Lembra, lembra. Daí leva o telefone, já que de orelhões ou gentilezas, carência. Ah, e também o guarda-chuva em caso que. Afinal, dorme leviandade em prenúncio de. Aguaçal.

E à fúria repentina, agora é mais.

(...)

É...? Tá, então vai sem, ei, olha, vais perder o elevador.

(...)

É. O apetite berra montanhoso, vai logo.

(...)

Ah, lembrei...

(...)

Já foi. Às cebolas, então.

                                                 E agora era. E agora sendo.

 



Escrito por porque escrever é preciso às 14h01
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Ph Ana Araújo / Imã Foto Galeria

 

em tão

lusco-fusco

de mais a mais

além

 

todavia

 

subtrair

da cor o sumo

...lo que sea...

rebento

à carne

 

desde

el último escalón

timbre

nas dobras dos dedos

à lua

 

línguaa

 



Escrito por porque escrever é preciso às 15h22
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Vem agora

Vai

Se não sei mais

Quanto (te) partiste ao dia

Largo sem anúncio

Afiado num

Estranho vizinho

De alma e mácula

 

Anda agora

Trás gritar

Sem te virar

Porque ao flagrante

Cravejou-se mágoa

Implicada

Tamanho G-gente escândalo

 

Mais logo

Dissolvida

Estação curvada

Raro encosto

Vocifera abafado

Nem mais

Apenas tanto



Escrito por porque escrever é preciso às 10h53
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PH Avani Stein

in: http://www.imafotogaleria.com.br/galeria/

Novembro é outro. Na esperança de sê-lo, coincidentemente aqui na folha em que escrevo é 1º de maio. E as energias vitais rondam por aí, no trabalho, na labuta da lapidação diária, nessa estranha força de querer. Menos abstrata ou genérica, então, agora repousarei minhas armas inúteis. Vou me harmonizar com a natureza, confiar na semeadura, plantar as idéias, os ideais, em solo terreno. Tudo bem, deixa as quedas na memória sem mágoa.

Adelante, cariño, porque cambia, todo cambia (...). Na segunda noite, a atmosfera noturna cambia. Hay pájaros, periquitos e outros, um rádio distante, o amanhecer refletido na parede azul de uma nova janela. Daqui se reconhecem sons, quisemos, queríamos fugir do ruído e cá estamos. Escuta-se, escutamos. Escuto teu sono desmaiado sobre a cama, imagino a entrega, amo.

Rendo-me, chega de lutas inglórias, indóceis. Basta. Amo-te na pele e na fantasia, confesso o arrepio que me causas. Teus olhos pequenos de cílios desenhados que me atingem fulminantes e aos poucos. Feito a vela aqui defronte, à vela, em navegação. Crisântemos pedem água e tua boca me chama. Começa por aí, no beijar, o intuitivo, o tátil, a oralidade sem alfabeto. O calor preciso na medida do indizível.

Amo simplesmente como desconheço. Nunca antes e sem depois de você. O sino, um anúncio. Anuncio que não mais atiro e, sim, entrego, sem mais fugas, fico contigo.


Palena Duran

leia mais em http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 16h03
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Do alto da ladeira

tua gente

mascarada, bêbada,

cansada.

 

Daqui, nada.

 

Ou talvez dois pontos

saltitando

nas mãos:

Sim, Não,

Sim.Não.Sim.Não.

 

Toca o sino

essa ausência que separa

e algema.

 

coluna SEM INOCÊNCIA em http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 19h16
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É que os dramas têm ritmo próprio

 

Então era fundo e espaçoso. Nada viscoso, mas tampouco límpido. Tudo mudando muito rápido, palavras e fotografias em velocidade para chegar ao mesmo, à comunicação, aos sentimentos, à infância, à juventude, ao amor, à canção de pulsar, diálogos talvez. Também viver a solidão da comunicação. De todas as linguagens visto sombras e fios rompidos. As cartas foram extraviadas no planeta de uma nota só. Vivo de cinema, enquanto alguém estuda cardápios. Lanço pedras num rio qualquer, deito-me com as pernas para o alto. Quem, quando, onde, como? Na parede do quarto - avoar. Uma dose de celebração, por favor. Sei andar pelas calçadas, mas também caminho por ruas, vicinais e trilhas de mato.

 

“Quantas curvas tem um rio? Quantas camadas têm uma nuvem? Alguém poderá varrer as folhas de uma floresta e dizer ao vento para não sacudir mais as árvores? Quantas folhas um bicho-da-seda tem de comer para fazer um vestido com as cores do passado? Quanta chuva deve cair do céu antes de o oceano transbordar de lágrimas? Quantos anos a lua tem de ter antes que envelheça? (...)”.

 

Enquanto a chuva mesma aos ouvidos desatentos, de tanto nos buscar pouco nos encontramos, embora os meios de falar, dizer. É preciso ser criança para encontrar o adulto. Mergulhar no silêncio, ora oco ou na plenitude de sons, preenchido – entre ser, estar, ser para estar – e vice-versa. Saber da flor de lótus, nosso branco, a delicadeza tangível.

 

http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 11h00
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Senhora esperança

 

Quem sabe amanhã nasce outro dia? Parar um pouco, burlar o código da mesmice. O que teima em se infiltrar sem o menor pudor, vindo de dentro e, ultimamente, bastante de fora. Aquilo que nos ocupa e transforma o olhar; quisera não deixar de sentir a leveza do dia ensolarado, o calor daquele abraço. Procurar pousar sobre a paisagem. Mas a vida não tem sentido, conversávamos no domingo. O sentido é viver e fazê-la, de pouco a pouco, de pouco em muito, de muito a pouco, talvez.

Queria encontrar além da noite a esperança, a esperança com seu largo sorriso, ou mesmo que viesse calada e ensimesmada como dá de acontecer, sentir seu bom dia, escutar seu sussurro: ‘hoje algum pedacinho dos sonhos vai acontecer’. A esperança.

E assim devem começar os novos dias, quando for possível ser mais dono da própria vida, primeiro ela se constrói na imaginação, projeção, depois enquanto realização. Menos à deriva, menos transitando pelo não, não, não. Assim também seriam os novos dias. Garantir a dignidade humana, o essencial para manter a espécie.

A noite chega de mãos dadas com uma brisa fria fina límpida. Dá pra enxergar seu percurso e o colorido volátil das sensações, a dor me deixa azul marinho escuro. Sigo assistindo as pessoas sendo e caminhando, embora menos perceptiva para o mundo de fora. A questão, entre várias, é a aflição no universo da vida. Essas coisas que nos ocupam, abatem, sugam e diminuem. Diminuem nossa presença diante de nós mesmos, da solidão, do amor, amante, amado, rebaixa.

De repente um fio referencial - enquanto gente for infinita, o que é de fato, não dá pra ficar assim. A gente quer o melhor da gente, não quer ir para o buraco e nem levar ninguém conosco. É preciso encontrar um espaço para existir como indivíduo, sem se ver achatado, e disso a chance de harmonia na vida coletiva, em coletivo.

Noite me embala insone. Na zanga com a injustiça que é não ter como, quando, aonde, desespero inominável; so deep, with heart and soul. Gostaria de poder determinar o fim, agora e já, de tudo que nos incapacita, aquilo que anestesia ou imobiliza nossa auto-realização, o acontecer da gente.

 

http://banga.zip.net

www.geracaobooks.com.br



Escrito por porque escrever é preciso às 12h38
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*** amanheceu. Devia ser natural feijoada na quarta em qualquer parte. Depois re-partir o corpo sobre a cama quente, essa aldeia.  Mas tenho 30 reais e muitas angústias - até quando? falta só Uma semana pra não cortarem a luz. das idéias. E Se eu correr até morrer de falta, quem sabe adianta. Do avesso, coração. Afinal, morrem todos os dias para outros viverem. É a cadeia da vida. Jaula às vezes sem perfume, cabelo desgrenhado, pele marcada. E a amarga ausência do que se sabe - pode ser doce. Drogas e flores da superstição. Olhos brancos de espaços sem comentários. E os braços pra fora da rede.

 

coluna SEM INOCÊNCIA - http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 12h28
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arte de Erika Engel

 

Embora ninguém seja inocente e tenhamos perdido a virgindade.

Cá escuto nossas falas cantadas e os gestos loucos que cultivamos de encontros em reencontros. Saiu das idéias, veio em metáforas, quem diria. Sementes de incômodos na inquietude de enxergar a vida. E querer mais, sempre mais, em busca de sentidos e o que nos arrancasse do asfalto chumbo. No caminhar houve quedas, silêncios prolongados, distanciamentos ocultados, mas sempre no horizonte o tal calor. Esse que se nos revela agora no grito pasmo do feito e desfeito. Ofegantes, também atropelamos os minutos pensando se tratar de segundos, mas no desconcerto encontramos esses braços que nos enlaçam. Ora navegar, ora afogar, ora se perder pra ressurgir. E, acima de tudo, bem abaixo do frio, pulsar em tons de harmonia. Jogamos pétalas aos ventos da noite, coramos, brotamos, renascemos as crianças. Coração. Sem esquecer que tem a doce questão da paciência, da presciência que habita nossos r(h)umores.



Escrito por porque escrever é preciso às 12h40
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PADARIA 24 HORAS

 

Um casal de pés sujos, pretos na sola, pés de quem se atreve a andar descalço pelas ruas ou de quem passou o dia usando chinelos de dedos pra fora na cidade. Parece que tinham saído dos anos setenta - não fosse a pele nova do garoto -, devem ter seus trinta e poucos ou tantos anos, conversam, fazem as pazes. São do tipo que faz yoga, bom alongamento e despreocupados de etiquetas de comportamento. Ela de vestido florido, sentada, um joelho dobrado contra o corpo, calcinha clara à mostra e a outra perna estendida sobre outra cadeira. Olham-se nos olhos, pensam assunto, ele senta-se como um jovem pensador – ‘tipo’ jovens sensíveis que soam pensantes – olhar reflexivo, barba repleta.

Num ímpeto, de repente é macho, beija-a na boca, voraz, levanta-se para acariciá-la. Nesse meio tempo (entre a frase anterior e a ação corajosa) ele tinha ido telefonar, ainda descalço despojado, no orelhão ali em frente - enquanto ela ponderava se trepava ou não trepava, sobrancelhas erguidas encimando olhos bêbados. Aposto que ele não mora só e tenta providenciar uma cama de remédio. Então, voltou o moço-homem cheio de si.

Novo ângulo, agora ele está sentado de pernas cruzadas, lado a lado voltam a conversar sobre o assunto sério depois do telefonema. Ela tem os olhos entorpecidos, torcidos, chorosos talvez, usa uma camisa jeans sobre o vestido - esconde a nudez dos outros, é só pra ele, o menino. Sim, um menino barbudo que precisa levá-la dali e lamber tudo. Beijou os pés sujos, cúmulo do querer dormir junto num transar elástico, deve ser agora que vão embora. Não, ainda não, todavia se seduzem, sorvem cerveja, o néctar de uma noite sem lua. Cabelos sebosos, despenteados, encaracolados, nem curtos, nem longos – ela enterra os dedos no calor dos dele e massagem. Massagem, outro ímpeto. Apresentação de erotismo, ensaio de posições - ele se ajoelha em frente à cadeira (dela), beija-a num beijo de meneios de cabeça, mãos se alisando e também puxando a camiseta pra baixo (escondendo a protuberância da carne).

Prontamente se refez. Voltou à cadeira em posição “à vontade”, pernas abertas, cadeira de frente pra outra, apoiadas sobre as pernas dela. A hora não chegou, e a calcinha é definitivamente dele. Mais macho ainda - porque ela parece enfrentar certo pudor, ou faz um número de vergonha - ele a agarra trazendo-a para seu colo em tesão pronunciado. As mesas ao lado se alvoroçam, nem é tão tarde ou meia noite, porém certos habitantes condenam a volúpia explícita; ao mesmo tempo em que tudo vêem e quase mordem os copos de vidro à boca...

De olhos fechados ela se tranqüiliza, como se não fosse ela mesma a mulher, então abre pupilas escuras escondendo o rosto no riso de menina, e sagaz encenando a fala... Devem estar falando sobre movimento quando ela abaixa as mangas da camisa sacudindo os ombros como dançarina de metade do corpo na metade dele.

Cena final: preliminares ao cubo, cadeira com cadeira, um de frente para o outro - ele acende um cigarro, precisa de fôlego e mais cerveja, parece a primeira noite de uma terça-feira...

E assim os deixo, sem haver chegado hora ou luz na rua.

 

Palena Duran

(2001)



Escrito por porque escrever é preciso às 11h40
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Apesar das lindas tardes

É desonesto esse estar. Embora o jogo entre Brasil e Uruguai, Copa América na Venezuela - lá, onde há notícias - por las calles no pasa nada de extra-ordinário. Talvez pelo pouco estardalhaço causado pela mídia, essa apatia, tanto faz futebol, mendigo, senadores corruptos, desemprego e tal. O jornal que me chega em casa nem traz aviso de jogo algum, horários, essas coisas que deveria. Notícias. Ainda não sei muito bem por que, mas continuo me aventurando por jogos da seleção. A gente sempre busca e quer mais dos sentimentos, ou não.

continua em

http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=299 

e http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 13h44
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coluna SEM INOCÊNCIA

O infalível - em http://banga.zip.net

‘... É mais além, é mais além

Um pouco de exagero não é nada demais

Um olho nas estrelas outro olho aqui:

O astrônomo lunático

Brincando com o sol

Descobre que a distância

É mais do que um cálculo

É mais, é mais, é mais além...’

 

Mais Além

(Lenine, Bráulio Tavares, Lula Queiroga e Ivan Santos)



Escrito por porque escrever é preciso às 12h54
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...em minha coluna na Geração Editorial (é só clicar no link abaixo)

'Em nome de'

http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=282 



Escrito por porque escrever é preciso às 16h07
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De volta (?!)

É com muita admiração e alegria que venho anunciar meu texto publicado na revista S/Nº, editada por Bob Wolfenson e Helio Hara. A mesma pode ser encontrada - para deleites vários, sem dúvida - na FNAC, em SP.

Acima então a capa da revista, bela, bela, e o escrito logo abaixo...

bezzos & abraços...

Lágrimas não envelhecem

  

Parece que foi numa dessas noites agudas e sedentas de suor na língua. Gotejar para umedecer o deserto, sim, banhar-se em águas renascentes, lançar-se à natureza – em busca - e expelir o mofo envolto em esperanças. Porque a memória veste o hábito de recordar o que nem sabia perceber, de repente engasga em cada lembrança. Na sala, na feira, aos tropeços nos cantos ou em meio aos bichos soltos da cidade em eterna re-construção.

Ela se apaixona pela espontaneidade no dom de chorar o gosto de mundo novo. De tão singulares que podemos ser, o pranto é só nosso nas impressões invisíveis. Então pra quê mirar-se em espelhos quando o de dentro não cria reflexos? Porque temos apetite de sonhos, que acabasse o pranto de guerras e sangue - balbuciou.

Ao mesmo tempo confusões, trapaças em horários amalucados, estações de metrô erradas, jornais em hemorragia e as coisas caindo sobre as coisas por onde se segue. Ao fundo das miragens há Caravaggio, a cavalaria napoleônica, o Tema de Lara, e talvez algum esquecimento oportuno. Como também ácidos néons, buzinas, britadeiras, motores, gente sofrendo, suando. Gente que ocupa os sentimentos da gente, ora regozijo ou cansaço depois de longa espera, ora assombro feito a Medusa com serpentes à cabeça.

Sem censura, confessa que o amor é contrário ao pudor - sua sobrevivência é obscena em solo de pragas. A dialética diria: o amor se veste de si em sentidos acesos, pleno, e depois se converte no desconhecido. Seria agridoce a angústia? E lágrimas, mares ou rios incidentes? Ela procura sentir o paladar dos sentimentos, e acha que no tempo em que tudo tiver nomes haverá mais receitas para se chorar, imagina.

Embora culpas, reclamos e bobagens tenham uma febre de linguagem que pinça as retinas, interessa-lhe a pele, tatear as cicatrizes, ousar risos desgovernados, recostar lábios sobre lábios. Então aperta os olhos, inventa, aquieta na beira da praia para ver o mar beijar os lábios da terra e lamenta o pranto silente. Gotas que não verte à toa.

Por isso às vezes endurece para não cair como a penitente Madalena, abandonada na cadeira, desalinhada, colares de pérolas ao chão e um líquido incerto aos pés. E nos íntimos segredos, sem mais veneno, percorre serenidades. Porém, quanto de insanidade ou lucidez nos cabe? Não saberia desfazer o enigma ou os movimentos místicos, pois sempre existe o que nos ultrapassa.

A questão é que ela anda a precisar do gosto das lágrimas, nem que seja um doce choramingo. Jura que guardará o próximo chorinho dentro de um vidro, em cristal de emoções, só pra degustar em horas assim. De lavar a alma, de saudade das mãos enlaçadas, do olhar repousado, do cheiro do corpo na boca de quem se enreda no sal da terra, 'pra vida de gente levar...'.

 

Palena Duran



Escrito por porque escrever é preciso às 18h51
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